quinta-feira, 1 de junho de 2017

1 de Junho - dia para relembrar coisas tristes


O dia de hoje foi escolhido para relembrar a Criança, os seus direitos, a defesa dos mesmos, e para também nos recordar de como é importante proteger esse estádio do ser humano, os seus primeiros anos de vida, em que todos somos dependentes da boa vontade, saúde mental, condições económicas, cultura dos nossos cuidadores adultos. Quando nos pomos a pensar na nossa infância, a maioria de nós, os que lemos blogues e andamos por aqui nas redes sociais, etc, não temos grandes traumas ou lamentações, felizmente calhámos em famílias consideradas normais e crescemos com alegria e amor, mas e os outros? Os outros estão longe, fora do nosso alcance visual, das nossas preocupações diárias, e isso é o grande problema. "Longe da vista, longe do coração!" E é mesmo assim! Não fosse uma ou outra foto sensacionalista de crianças com fome, ou vídeos de bebés a serem maltratados, não nos lembraríamos de que nem todos os meninos e meninas vivem como os nossos filhos. Colocamos um bonequinho a chorar, escrevemos umas palavras de revolta e pronto! Está feito!
Recordo aqui uma história com um par de anos, só para testemunhar o quão cínicos somos todos nesta matéria.
"Um dia, numa reunião com pessoas que semanalmente lidavam com crianças, e discutindo o tema da pobreza na infância e como ajudar a minimizar os seus efeitos, decido contar aos meus pares a história de um dos "meus meninos". Tinha oito anos, filho de pessoas pobres (ao nível de nem sequer terem um transporte familiar, moto, carro, bicicleta etc), com diversos problemas sociais, negligenciado e que uma manhã estava particularmente inquieto na minha aula. Perguntei-lhe o que se passava, quando todos os colegas já se tinham ido embora. Chorou muito, e confessou que tinha fome. As suas exatas palavras foram "A minha mãe não se levanta para me fazer o pequeno almoço e eu estava atrasado e não comi." Naturalmente que tinha fome, de comer, de atenção, de cuidados. Era uma das crianças mais espertas que conheci. Perguntei aos colegas se podíamos tentar ajudar de alguma maneira aquela família. Como pelos vistos já todos conheciam as pessoas em questão de outros "carnavais", o problema de uma criança de oito anos foi minimizado pela plateia e ninguém se quis meter no assunto."
Foi a primeira desilusão, passado uns meses ele foi retirado aos pais e vive ainda hoje institucionalizado. Na altura eu pouco podia fazer sozinha. Tentei falar com a mãe, várias vezes ajudei com o que podia, mas obviamente que a caridade não resolve, apoia.
Não consigo descrever tudo o que senti naquela reunião. Fúria, desilusão, tristeza, perante a covardia, cinismo, hipocrisia daqueles adultos cristãos que nunca passarão das palavras aos atos nem das intenções aos verdadeiros sentimentos que nos movem a agir perante algo errado. Foi a última vez que lá pus os pés. 
Muitas vezes penso nele e nos outros tantos meninos que vivem vidas desprezadas. É muito triste, mas mais triste ainda, é sermos eternamente cínicos e ensinarmos as crianças a serem-no também.
Talvez seja eu a errada nisto tudo, pois cada um tem a sua sorte... O grande problema (e meu pessoalmente) é que nem todos somos feitos de coisas moles e temos serradura na cabeça... 
(espero que ele não cresça amargurado, se isso for possível, que consiga perdoar-nos e que tenha uma vida  adulta feliz)

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