segunda-feira, 31 de julho de 2017

Anos 90 e um bloco


Todos nós temos uma atividade que nos dá prazer, algo que fazemos com facilidade e gozo, uns pintam, outros cantam, outros escrevem, com mais ou menos regularidade, mas sempre com felicidade. Um escape que nos segura e alimenta a alma e que, nos casos mais "graves", nos garante a sanidade mental. A maioria só o descobre quando já está a chegar à fase mais adulta da sua existência, que nos limita mais fisicamente e nos impele a encontrar uma outra forma de dinamismo. Mas há casos em que trazemos connosco esse vício desde novos, mais adormecido, mas sempre presente. Eu sempre gostei de escrever (e ler), e rabiscava em cadernos que tinha para o efeito, quando ainda não havia tanta tecnologia disponível. Encontrei noutro dia um desses blocos do século passado, com pensamentos que não me recordo de pensar, sentimentos que já não fazia ideia que tinha sentido, como se lesse alguém completamente diferente. Uma experiência muito interessante, que me transportou para os anos 90, no tempo em que achava que certamente o futuro seria aquilo que eu quisesse, e desdenhava nos hipotéticos contratempos que surgissem pelo caminho. Pensei em mostrar às miúdas lá de casa, como curiosidade familiar, mas tornei a fechar o caderno e a colocá-lo naquele buraco escuro, que já não me recordava de ter encontrado para selar tudo aquilo. Não vale a pena ter que refazer toda a imagem maternal construída nestes belos anos de vida familiar. Vamos deixar a Mãe sagrada e excepcional! ;)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

1 de Junho - dia para relembrar coisas tristes


O dia de hoje foi escolhido para relembrar a Criança, os seus direitos, a defesa dos mesmos, e para também nos recordar de como é importante proteger esse estádio do ser humano, os seus primeiros anos de vida, em que todos somos dependentes da boa vontade, saúde mental, condições económicas, cultura dos nossos cuidadores adultos. Quando nos pomos a pensar na nossa infância, a maioria de nós, os que lemos blogues e andamos por aqui nas redes sociais, etc, não temos grandes traumas ou lamentações, felizmente calhámos em famílias consideradas normais e crescemos com alegria e amor, mas e os outros? Os outros estão longe, fora do nosso alcance visual, das nossas preocupações diárias, e isso é o grande problema. "Longe da vista, longe do coração!" E é mesmo assim! Não fosse uma ou outra foto sensacionalista de crianças com fome, ou vídeos de bebés a serem maltratados, não nos lembraríamos de que nem todos os meninos e meninas vivem como os nossos filhos. Colocamos um bonequinho a chorar, escrevemos umas palavras de revolta e pronto! Está feito!
Recordo aqui uma história com um par de anos, só para testemunhar o quão cínicos somos todos nesta matéria.
"Um dia, numa reunião com pessoas que semanalmente lidavam com crianças, e discutindo o tema da pobreza na infância e como ajudar a minimizar os seus efeitos, decido contar aos meus pares a história de um dos "meus meninos". Tinha oito anos, filho de pessoas pobres (ao nível de nem sequer terem um transporte familiar, moto, carro, bicicleta etc), com diversos problemas sociais, negligenciado e que uma manhã estava particularmente inquieto na minha aula. Perguntei-lhe o que se passava, quando todos os colegas já se tinham ido embora. Chorou muito, e confessou que tinha fome. As suas exatas palavras foram "A minha mãe não se levanta para me fazer o pequeno almoço e eu estava atrasado e não comi." Naturalmente que tinha fome, de comer, de atenção, de cuidados. Era uma das crianças mais espertas que conheci. Perguntei aos colegas se podíamos tentar ajudar de alguma maneira aquela família. Como pelos vistos já todos conheciam as pessoas em questão de outros "carnavais", o problema de uma criança de oito anos foi minimizado pela plateia e ninguém se quis meter no assunto."
Foi a primeira desilusão, passado uns meses ele foi retirado aos pais e vive ainda hoje institucionalizado. Na altura eu pouco podia fazer sozinha. Tentei falar com a mãe, várias vezes ajudei com o que podia, mas obviamente que a caridade não resolve, apoia.
Não consigo descrever tudo o que senti naquela reunião. Fúria, desilusão, tristeza, perante a covardia, cinismo, hipocrisia daqueles adultos cristãos que nunca passarão das palavras aos atos nem das intenções aos verdadeiros sentimentos que nos movem a agir perante algo errado. Foi a última vez que lá pus os pés. 
Muitas vezes penso nele e nos outros tantos meninos que vivem vidas desprezadas. É muito triste, mas mais triste ainda, é sermos eternamente cínicos e ensinarmos as crianças a serem-no também.
Talvez seja eu a errada nisto tudo, pois cada um tem a sua sorte... O grande problema (e meu pessoalmente) é que nem todos somos feitos de coisas moles e temos serradura na cabeça... 
(espero que ele não cresça amargurado, se isso for possível, que consiga perdoar-nos e que tenha uma vida  adulta feliz)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

3ª Tertúlia "Lousã Book Lovers"


Nunca tinha lido a obra "Meu Pé de Laranja Lima". Como a maioria de nós, já ouvira falar, mas felizmente ainda não tinha visto o filme brasileiro. (Se há coisa que estraga a leitura é já sabermos a história.) Pessoalmente adorei o livro, muito simples, despretensioso, honesto e essencialmente humano, tanto no melhor e pior que isso possa significar. Uma leitura em "brasileiro", totalmente lida com sotaque, e também por isso mesmo, mais emocional. (várias lágrimas...) Quem resiste a uma criança de cinco anos, traquina, que no meio de uma pobreza que não conseguimos imaginar, consegue inventar amigos, cenários de brincadeira, e ainda ter espaço para a "ternura"? Queremos consolá-lo, dar-lhe um presente no Natal, comprar-lhe uns sapatos, uma roupa de poeta, e protegê-lo dos dramas familiares que se vivem numa casa com necessidades financeiras, emocionais e abandonada ao desespero. Um português representa o herói na história, e também isso nos toca, e nos deixa ligeiramente felizes e orgulhosos enquanto povo. Essencialmente somos transportados para uma dimensão quente, poeirenta, de gente esfomeada e triste, onde vive um menino chamado Zezé, e o nosso coração aperta.
José Mauro de Vasconcelos colocou na sua escrita muita da sua vivência pessoal, experiências de infância, e construiu uma obra magnífica, chamando a atenção para a pior das pobrezas, a falta de ternura. Conseguimos todos crescer com relativamente pouco comer, a maioria da população do planeta não começa o dia com cereais coloridos e doces, mas não crescemos saudáveis sem amor. Amar faz falta, a ternura nas famílias faz falta, mesmo quando tudo parece não ter solução, sem ternura fica com certeza mais difícil. 


sexta-feira, 19 de maio de 2017

"Bem Vindos ao Circo!"



Hoje de manhã, ao deixar o meu filho mais novo na creche, tive uma visão muito triste. E digo triste, porque sofro bastante com os problemas alheios, e nada de bom se avizinha para algumas mães desta época. Sempre observei com alguma crítica aqueles pais que fazem malabarismo matinal, todos os dias, quando precisam de deixar os filhos na escola, e que não conseguem resolver as questões de separação com naturalidade, como seria de esperar - afinal nós voltamos ao final do dia, e eles nem vão notar a nossa ausência. Mas hoje, pela primeira vez, fiquei perplexa ao ver uma mãe em pleno desfile de variedades, que do caminho do carro à porta da creche, carregada de balão, brinquedos pessoais e mochila, tentava convencer a menina de metro e pouco a entrar na porta... Mas o que é isto? Estive quase a perguntar à senhora. Já viu a figura que está a fazer? Também me surgiu na cabeça. Que macacadas vai fazer à criança quando ela for para a escola primária? Perguntei a mim mesma, estupefacta. Sim, porque dificilmente esta senhora conseguirá inventar distrações e subornos materiais durante vários anos seguidos, e eles, é preciso que alguém a avise, costumam ficar mais exigentes com a idade. O medo de traumatizar os filhos ao obrigá-los a fazer algo que eles não querem, domina completamente estas pessoas, e isso é preocupante. Não sei se é coincidência ou não, mas todos os meus filhos sempre adoraram a escola, foram voluntariamente dos meus braços para os braços das professoras, auxiliares e funcionárias em geral. Nunca tive uma birra ou choro matinal, e acho que não era por estarem aliviados a fugir de mim (espero). Tenho a convicção de que a minha atitude firme e natural, que nunca transpareceu ansiedade (mesmo que nos primeiros dias em que deixei um bebé de 4 meses na creche chorasse sozinha no carro), os deixasse calmos e seguros do que estava a acontecer, e com o tempo, simplesmente gostassem de estar na escola, de brincar, de conviver com os seus pares. Há crianças mais difíceis que outras, isso é certo, mas fazer a roda e o pino enquanto fazemos malabarismos com bolas coloridas, só para que a menina de 3 anos aceite que tem de ficar na escola, não é para mim. "Desculpem lá meus filhos, mas a mamã tem pouco jeito para ser palhaça. Às 18h00 venho buscar-vos, beijinho, até logo, e não mordam os colegas!"

(imagem, internet)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Salvador da Pátria!



Há alguns anos que não perdia tempo a ver o Festival da Eurovisão... Ontem lá estive a ver aquelas pessoas estranhas, que pelos vistos quiseram homenagear os Ingleses, que estão de partida, e cantaram todos(alguns emitiram sons) na língua "mãe" da antiga UE. Quando o nosso concorrente se apresentou, em português, houve claramente um misto de espanto e deslumbramento, o rapaz não vestiu lantejoulas nem fatos brilhantes, não quis dançarinas para distrair o público e teve alguns momentos que dificilmente conseguimos classificar, eu pelo menos não entendo aqueles saltinhos e caretas. Mas cantou, e como acontece quando a música é boa e a voz afinada, ninguém se importou com a excentricidade da figura. Até me parece que algumas pessoas do público estariam a pensar com carinho: "coitadinho, canta tão bem para tontinho"... Independentemente da polémica (hoje tudo serve para debater), o rapaz portou-se bem, esteve genuíno, como se tem apresentado, e conseguiu levar Portugal à final, só por isso, Parabéns! Agora os senhores portugueses que estão lá fora, façam o favor de gastar 0,60€ mais IVA e no sábado votar no nosso concorrente!!






terça-feira, 2 de maio de 2017

Solução para a preguiça laboral... não fazer fretes



"Faz o que gostas, e nunca trabalharás um dia na vida"... é qualquer coisa assim, parecido com isto, e estou com preguiça de ir pesquisar a frase correta... 
Deviam ter-me dito isto há 20 anos atrás, quando ainda havia esperança para dar um rumo profissional à minha vida. Como não havia internet, nem telemóveis, nem nada a não ser televisão com 4 canais, pagers, telefone fixo e tamagoshis, ficámos todos mal informados de como seria o nosso futuro. Agora olha, como infelizmente temos que trabalhar, nada feito; e em vez de andarmos felizes e entusiasmados com projetos excitantes, temos de remeter todas as nossas capacidades extra para atividades lúdicas de quando temos tempo livre. Como já estou a soar a mal agradecida, tenho de fazer um reparo neste meu desabafo inspirado no 1º de Maio, o dia do Trabalhador, pois há empregos que me deprimiriam instantaneamente, e o meu até tem vantagens. Só não ter de aturar chefes idiotas com problemas de auto-estima e rasgos de despotismo... é uma bênção! Mas se um dia pudesse acordar de manhã e escolher uma profissão, pediria ao génio da lâmpada que me levasse até ao Teatro S. Carlos, para ir aquecer a voz antes do concerto e nos outros dias da semana apenas precisaria de um PC com o word instalado. Nada de mais, simples e banal, mas que me faria muito feliz!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Amuse Bouche realmente amusing!



Um dia gostava de conseguir compreender a tara dos portugueses pelo pão. Sim, aquele alimento vulgar e ancestral, que todos temos como garantido à mesa, e do qual sentimos falta quando viajamos para o estrangeiro. Já dei por mim a sentir-me ansiosa num restaurante "lá fora" porque não havia cestinha de pão... Como é que alguém normal come comida com molho sem empapar o pãozinho fofo no líquido, para aproveitar até à última gota o saboroso tempero? Já para não falar no amuse bouche português do pão da mealhada com manteiga ou patê de sardinha... mas isso já é muita sofisticação para os primitivos loiros que existem de Espanha para lá! Eles sabem lá servir comida às pessoas... Põem-se a inventar com pratinhos cheios de desenhos artísticos, só para enganar quem ainda tem paladar para sentir o comer. E o pão? Onde está o pão para "lamber" os risquinhos de molho que supostamente encarecem a refeição, pois são de marca registada? Um conselho, levar sempre um papo seco no bolso! 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Valter Hugo Mãe, polémica e chá de menta


Sim, é com todo o prazer que vos digo que a 1ª Tertúlia Literária do grupo "Lousã Book Lovers" aconteceu mesmo! Foi no acolhedor espaço da "Taberna Burguesa", mesmo no centro da Vila da Lousã, que ontem, das 20h00 às 22h00, estivemos à conversa sobre o livro "o nosso reino", do autor Valter Hugo Mãe.
O atual escritor foi recentemente envolvido em polémica com alguns encarregados de educação ofendidos pelo "linguajar" inapropriado da obra em questão, que foi indicada pelo Ministério da Educação no Plano Nacional de Leitura para o contexto escolar. Depois de lermos este livro, e de o estranharmos ao início, somos de facto envolvidos num ritmo de leitura que nos obriga a não fazer pausas, e nos transporta para Portugal de 1974, antes e depois de abril. Uma criança ingénua e crente conta a sua realidade espacial e social e ficamos ligeiramente deprimidos com a vivência supersticiosa e dominada pela Igreja que vivíamos nessa época. Não sei se os senhores do Ministério ou os próprios pais que o criticaram leram o livro, pois há realmente um parágrafo ou dois onde são usados termos menos próprios e temas dificilmente acessíveis a crianças pré-adolescentes, mas se não o fizeram, deviam! É uma obra muito bem escrita, diferente, que nos mostra até onde a democracia na escrita pode ser possível, que nos deixa interpretar à nossa vontade os pensamentos daquele menino, e nos permite vivenciar tudo aquilo de uma forma pessoal, exclamamos quando queremos, questionamos sempre que nos parece correto, fazemos parágrafo quando a nossa sensibilidade nos diz que é para respirar. E no que toca às crianças que leram a palavra "foder" e naturalmente ficaram escandalizadas, só podemos concluir que esse contacto com a realidade é um dos processos de crescimento democrático, onde cada consciência pode fechar ou abrir um livro, na sua  própria censura literária. Também nos questionamos sobre isso, ficando a pergunta em aberto: "deveremos censurar à partida o que os nossos filhos lêem?, Ou devemos deixar que escolham em consciência o que tirar da prateleira lá de casa?"
Em abril voltaremos a marcar encontro, para falarmos sobre o livro "O último Catão" de Matilde Asensi. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Café e Bananas


Só quem já partiu uma coisa que lhe era extremamente necessária pode entender o desespero de uma mulher a tentar tirar a chaleira de vidro da máquina de café, arrumada numa prateleira demasiado alta, e vê-la estatelar-se no chão, depois de lhe arrumar um pontapé com o dedo grande do pé, naquela tentativa tão patética de "apanhar o objeto com o pé". Toda a gente sabe que o pé não agarra nada, não tem polegar, mas ainda assim temos este instinto ancestral de quando abríamos bananas com os membros inferiores enquanto coçávamos o cucuruto da cabeça distraídos. Felizmente tinha uma chaleira sobresselente, o que suavizou o mal estar momentâneo de ver milhares de vidros espalhados por toda a cozinha antes das 8h00 da manhã... Noutros tempos daria murros no peito e arrancaria uma mão cheia de cabelos, para soltar a raiva, mas isso era no tempo em que ainda tinha polegares lá em baixo. Hoje, civilizadamente apanhei os cacos e fiz café!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Liberdade e Carroceis



É um dado adquirido, sermos livres para pensarmos o que nos apetecer. Conquistámos a nossa independência há algumas décadas, com ela veio uma adaptação à nova condição de seres pensantes que até então era censurada e sufocada. Muita gente entretanto nasceu e já não imagina o que era viver com medo de dar uma opinião contrária à oficial. Isto é tudo muito lindo de se dizer, mas se analisarmos um pouco o que nos rodeia chegamos à conclusão de que ainda somos demasiado censurados, e a maioria por si próprio. Sem passarmos a barreira da falta de educação, ou simplesmente sem magoar o próximo, há ainda uma considerável distância entre o que pensamos de facto e o que dizemos publicamente. Andamos em carroceis giratórios de opiniões aceites pelas massas, que não nos deixam enveredar por outras direções. Sim, é simples e cómodo, tira-nos um peso de cima o facto de deixarmos os outros confortáveis com a nossa posição concordante mas, e depois? Quando um dia quisermos sair do baloiço e já não soubermos andar de outra forma senão à roda? Ficaremos desequilibrados e tontos, cairemos atabalhoadamente como ébrios. Felizmente tenho "mau feitio", ou como eu lhe prefiro chamar "penso pela minha cabeça", o que me dá uma certa dificuldade em manter a socialização ideal, mas me ensinou a andar por onde me apeteça, quando me der na real gana e com quem quiser. Porque é que me apeteceu falar sobre isto? Bem, é preciso ter mesmo um motivo concreto, ou posso ser livre?