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Rebobinar até ao sítio certo uma cassete, uma arte perdida!

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Devia ter os meus 7, 8 anos, não consigo precisar bem, sei que era bem pequena e que já dominava um VHS. Um dia decidi ver um filme que estava numa sala pequena em casa dos meus avós paternos, onde havia várias cassetes, um leitor de VHS e uma televisão. Encontrava-me sozinha, como sempre gostei de estar, sossegada, enquanto os adultos faziam as coisa lá deles, conversavam coisas chatas e que não me interessavam minimamente. O título era "Música no Coração", e se tinha música, só podia ser bom. Rebobinei e comecei a ver, sem qualquer noção do que para ali estava. Uma música bonita surgiu e levou eternidades numa apresentação sem fim, com barulhos de pássaros a cantar, paisagens, casas, tudo bonito. Recordo-me de estar já a ficar sem paciência porque o filme demorava em começar, mas quando já estava prestes a desistir e mudar a cassete, a música desenvolve e diz que vai acabar, aproximando-se de um êxtase musical que todos reconhecem, até mesmo crianças. Entra a protagonista…

8 de Março

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Muitas vezes digo em desabafo ou frustração que "quem me dera ser homem!", tudo seria bastante mais fácil e leve. Há uma série de vantagens físicas, emocionais, para se preferir utopicamente ser homem; têm naturalmente mais força, logo, custa-lhes bem menos qualquer tarefa física, não sofrem de alterações hormonais mensais, nem dores regulares, não carregam filhos no ventre, não os expulsam ao fim de 9 meses, não precisam de fazer a depilação se assim o desejarem, não engordam com tanta facilidade, perdem peso rapidamente com meia dúzia de idas ao ginásio, podem nadar sempre que lhes der na real gana. Isto é só aquilo que me lembro assim de repente. Depois, numa outra área mais complexa, a social, nem vamos falar, não é? Já basta de gabarolice rapazes, todos sabemos como é bom ser-se macho por aqui. Isto é daqueles assuntos já tão falados que parece que nos estamos constantemente a repetir, e isso cansa. Mas, em 2016 tive o meu primeiro filho rapaz, e pensei, "bom, ago…

Caminhadas e Teologia

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As crianças, de uma maneira geral, adoram caminhar com os pais. As minhas gostam, é uma forma de sair de casa, espairecer, e na maioria das vezes, conversar sem pressas. No último fim de semana acordei cedo demais para um domingo, ideal para caminhar antes de almoço. Levei os mais pequenos e o cão, e lá fomos, andar sem destino concreto, reclamando dos passeios feitos para inglês ver, e não para pessoas andarem, tortos, pequenos, com falhas, impossíveis para carrinhos de bebé. A dada altura passa um carro e a Teresa comenta: "olha, vai ali o pai da (...)!", e eu respondo que não me lembrava de quem era a menina, "Aquela que nunca podia festejar o Natal, nem o Carnaval, e nunca levava bolo no dia de anos!", explicou, descrevendo uma criança filha de uma família de Testemunhas de Jeová. "Coitadinha", comentei, eu também só tive Natal a partir dos 12 anos, por causa dessa religião, lamentei. "Que horror!....", diz, "que estupidez!, mas porque…

2018 - Check!

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Pronto, já está, sobrevivemos a mais uma temporada de jantares hipercalóricos, andamos cheios de azia do espumante de fim de ano, mas podemos orgulhosamente dizer que 2018 está cumprido!  Normalmente sou uma pessoa otimista, positiva, e com tendência para rir do que faz chorar, (adoro humor negro). 2018 para mim cumpriu-se, ultrapassei fases mais difíceis, fiz uma mudança de casa literalmente toda às costas, viajei, engordei uns kilos, comprei um cão, só ainda não deixei de fumar. Tinha falado sobre isso, eu sei, mas ainda gosto tanto do meu momento zen à varanda, quando fecho a porta de vidro e tudo fica em paz, acendo o meu cigarro e olho a paisagem. Quem tem filhos pequenos sabe como é preciso momentos de paz, de silêncio, é essencial. Mas está como projeto a médio prazo, até aos 40 anos acabo com o vício fedorento, prometo! Voltando a 2018, um ano que revolucionou tanta coisa na nossa vida, é preciso aprender com ele algumas coisas: nunca subestimem um ano par, quando menos esper…

31 de Outubro

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Já tenho pensado muito nisto... e chego sempre à conclusão de que as pessoas gostam (ou precisam) de um cabresto, seja ele bem direcionado ou não... faça ele sentido ou não. Tem sido assim desde o início dos tempos, e nessa época, quando os nossos antepassados eram uma mistura de cromonhó com força bruta e pêlo, seria aconselhável alguém mais corpulento dar uns murros a quem se portasse mal, roubasse comida ao próximo, fizesse as necessidades dentro da gruta porque estava frio lá fora. Aí compreendia-se o Alpha educador, a quem todos obedeciam, era no fundo uma forma de proteger a espécie, um instinto que os animais ainda têm. Mas em 2018, quase 2019? Depois de tanta evolução do ser humano, de tantas conquistas, erros, falhanços, sofrimento? Mas será que ainda não conseguimos pensar pela nossa cabeça e daí surgirem ideias com nexo e decisões coerentes? Será que estamos tão imberbes ainda que não consigamos diferenciar um pecado verdadeiro de uma simples festa de Halloween? Sim, o obj…

E tudo o tempo levou (e trouxe)

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Um dia estamos a secar o cabelo depois do banho e damos conta de que o tempo está irremediavelmente a passar. As rugas na pele são uma realidade com que vamos lidando há algum tempo, e já nos habituamos a elas, mas os longos cabelos brancos que ontem não estavam lá e agora sobressaem... esses são terríveis. Pinto, não pinto, que chatice, eu que odeio cabeleireiros, não tenho pachorra, e não me apetece estar em casa em manobras com tinta do supermercado a dar cabo dos braços... Raios partam na idade, que tudo traz a quem a ela chega... Nunca os nossos problemas de consciência falaram tão alto, como naquele exato momento em que vislumbramos cabelos brancos, várias resoluções adiadas para a idade adulta nos cercam com dívidas de tempo, e temos mesmo que admitir para nós próprios que somos mortais. Acabou-se a ilusão de que velhos são os avós e os senhores que estão nos lares, aquele vizinho de bengala, ou todas as pessoas que eram adultas quando ainda estávamos na escola primária. Velho…

A Gabriela de todos nós

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Na 16ª Tertúlia Literária do nosso grupo "Lousã Book Lovers" estivemos a falar sobre Jorge Amado, o Brasil e "Gabriela, Cravo e Canela". Foi curioso termos como tema o nosso país irmão, logo agora que o mesmo atravessa um período de mudança tão sério, que somos inundados com notícias assustadoras de radicalismos e medo. Todos conhecemos a fórmula da extrema direita, de como o que seria impensável se torna viável para o comum dos cidadãos, de como alguém que se considera "da paz" pode apostar num candidato que defende o armamento civil, a exterminação de certas pessoas, clama o ódio como solução para um país cheio de problemas. Sabemos que há muita gente descontente, que quer mudanças, que precisa de se sentir seguro, e para nós europeus que vivemos em relativa calma e prosperidade, é difícil aceitar que se defenda o nazismo. Falamos de cor, porque estamos longe, só conhecemos o Brasil das notícias, não temos que enfrentar a sua pobreza e a sua dor. Para …