O Antes e o Depois



Não podemos ser hipócritas ao ponto de desprezar as maravilhas da internet, a evolução drástica que trouxe ao nosso dia a dia, a facilidade com que hoje fazemos certas tarefas. É muito bom ter amigos, família, contas domésticas, bancos, receitas da farmácia, datas das consultas, agendas com avisos sonoros, etc, etc, tudo no bolso, guardado no pequeno dispositivo com que às vezes falamos ao telefone. Não é bom, é ótimo! E quem disser o contrário, é porque é masoquista, ou não tem um androide e nunca percebeu como pode ter a vida no bolso. Mas não raras vezes, quando nos sentamos à mesa e cada um dos presentes pega no "seu mundo", olho em volta e penso como tenho saudades de ser primitiva. A alegria que era receber um postal, a aventura de namorar ao telefone com pessoas por perto, o perigo de corarmos e alguém perceber a conversa, como era libertador sair da escola e andar em silêncio sozinha nos transportes, ver a paisagem, observar os outros passageiros, olhar para a frente na rua e não para as mãos, chegar a casa e estar só. Aquela solidão imposta com que todos sabíamos conviver até aos anos 90 e que acabou. Ninguém faz nada sem espreitar o telemóvel que apita insistentemente, lembrando-nos de que alguém nos quer falar, comentou ou está apenas para ali à espera de um sinal. Como podemos estudar, cozinhar, ver um filme, e pior, ler um livro, se não largamos a bodega do aparelho?, que para piorar, ainda é portátil e pequeno? Já pensei várias vezes em tomar atitudes drásticas lá em casa, arranjar uma caixa à entrada na porta onde todos colocariam o telemóvel, em silêncio, e apenas lhe poderiam pegar ao outro dia antes de sair. Mas aquilo é danado, tem truques para viciar os mais inocentes, ou porque não podem perder as "chamas" numa aplicação, ou porque as amigas não param de pôr fotos e temos de comentar, ou porque estamos apenas todos viciados em egocentrismo. Lanço um desafio às minhas pequenas viciadas lá de casa, experimentem nas férias de Natal "brincar aos anos 90", desliguem os telefones, olhem para a frente, convivam com o silêncio da casa e do resto dos locais. Vão ver a quantidade de coisas que não conheciam.

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